sexta-feira, agosto 25, 2006

Praças, fumaça e andaimes

Sinto-me como um tijolo
}soluçando{ entre dúzias
de outros suportando tolo
todo peso cambaleando,

ligados nesse concreto
fraco, desse corpo reto
lógico e cômico.

Sou lugar de descanso
uma passagem do tráfego
de botas, chinelos e sapatos
num baile sujo e trágico.

Um pedaço de pedra,
a paisagem concreta
atrapalhando o retrato.

Marina Ráz

sexta-feira, agosto 18, 2006

Acene novamente

Imensidão, todas as passagens
são paredes brancas, vejo tantas
mensagens riscada nos muros;
códigos, pedidos de socorro, mas
são todas sussurros em coro.

Onde me levam meus passos
para calabouços, cadafalsos?
Sento-me no chão e espero
meu corpo se enraizar no asfalto,
pois é tudo que quero. Que
o mundo me tome de assalto.

Marina Ráz

segunda-feira, abril 24, 2006

A fruteira

Todos os homens
são como feras
hora devoram-se
outra se lambem
saborosos brutos
nesse gládio vão-se eras
e alguns tufos,

todos merecem as rosas
troféus e vitória
régias ou ruínas
na suína batalha
de toda sina, de todo estória.

Marina Ráz

quarta-feira, abril 05, 2006

Roçar de asas

Desculpe se te devoro
lhe cuspo os ossos, olhos,
pois só sei amar assim
antropófaga e desmedida
sou algoz e prisioneira
de todas as franquezas;

amar, amar, amar, amar
eu recito e desmistifico
todas as fraquezas do mito.

Marina Ráz

sexta-feira, março 31, 2006

Leiam os jornais

Engulo ar como vidro.
Como vidros partidos
estilhaços asteróides
perco meus sentidos
(gata sem bigodes).

Marina Ráz
estilíngua

Curo as doenças do corpo
com o paladar, com a saliva.
Ocupo o andar com crenças
e busco tudo que se esquiva,
como um terremoto absorto
alimento e sacio o mundo
com dez perolas plantadas
da bocarra de um porco.

Marina Ráz

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Pétalas

Toda paisagem se cansa
o sol diz que vai sambar
e tudo vira uma sombra,
ficam as almas nesse tromba-tromba,
onde esse mundo vai acabar?

Marina Ráz

domingo, fevereiro 19, 2006

Doidivanas

Estou disposta a qualquer morte
morrer na lança de Quixote,
bang-bang, cut and shot!
Um alvo esperando a seta,
uma maça na cabeça do poeta.

Marina Ráz
Sim floriu

A paixão é uma pedra
que se lança.
O amor é um pendulo
que se cansa.
Tudo mais é uma dança,
quanto mais o tempo
corre, menos se alcança.

Marina Ráz
O sangue não carrega espinhos

As rugas se acomodam
na face, face ao sorriso
que nasce no olhar liso,
seco e vivo.

Marina Ráz

sábado, agosto 06, 2005

0 hora 32 minutos e 15 segundos

A hora, horário, incendiário
cada minuto cinerário.
Inertes num mesmo cenário
Cada segundo pareceu,
um plágio, do que sucedeu...

Marina Ráz

segunda-feira, agosto 01, 2005

Você sei?

Está no livro
"livro meu corpo"
nunca joguem
perolas ao porco.

Marina Ráz
cru&grosso

Eu existo
nisto e naquilo
tudo delito
quase dejeto
nada deleto
do que foi dito.

Marina Ráz

quarta-feira, junho 22, 2005

ARMOR

Desses pulmões frágeis
o hálito que lhe nomeia;
é doce e interminável,
mas infelizmente deforma
tudo em prisão formidável.

Marina Ráz

sábado, junho 18, 2005

A colheria

Em versos longos e sentidos
nos ombros e nos ouvidos
meço a vastidão dos espaços
entre o vão dos meus braços.

Quem se acomoda aqui
a não ser os meus seios?

Marina Ráz

sábado, junho 04, 2005

Amor

no primeiro verso
o papel fica rubro
e pega fogo.

Eu ainda o cubro
e vejo no resto
cinza e gozo.

Marina Ráz

sábado, maio 21, 2005

Jaula de lata

A morte surge
urge todo dia,
a vida, a presa,
enquanto ela espia

ruge suas presas
e a morte inda ria
"não há quem mude"
a hora viria.

"Que tudo enferruje
não existe alforria!"
Num ciclo presa

nada a ilude
medo e beleza
uma única via.

Marina Ráz

sexta-feira, maio 06, 2005

Má invenção

A vida procede a pau e pérrima
amar é imperdoável, nada mais
é tão agradável, tanto faz
o céu logo acima
e o inferno em plena esgrima.

A vida num impacto
torna tudoemmimcompacto
depois de tanto obstáculo
que acabe logo o espetáculo.

Marina Ráz

terça-feira, abril 19, 2005

Temporiso

O som vem do osso, eu
ouço crescer e crepitar.
Não há volta, só desvendar,
em qual nota, tom ou
vento irá pairar,

pois a música, indivisível, é
uma jaula invisível ao tempo.

Marina Ráz

domingo, abril 10, 2005

Framboesas e maçãs

Guardo rosas nos rins
filtrando as pétala até
encher a bexiga
como areia fina
para regar jardins
com pouca urina.

Marina Ráz