terça-feira, fevereiro 12, 2008

Dois no Norte

Vou-me amor tecida
com um traje d'gala
sirvo e sou sorvida
como doce de bala
o significado só dito
ao pé do seu ouvido.

Marina Ráz.
Crocodilos amados

Toda mulher quer ser desejada
quer ser amada e querida
quer aparecer nua
louca, descarada e desinibida.

Mesmo mulher, menina ou senhora
isso não se ensina na escola
é algo que nasce que cresce e que brota
na pele, no corpo e na alma
como o diabo gosta.

Eu sou menina, lolita e safada
quem dera você tivesse gana,
garras e uma força tirana,
mas eu continuo cigana.
Quem dera eu fosse domada.

Marina Ráz.
Fígado de flor

Essa dor estupenda,
com o coração
feito oferenda
numa bandeja
inda! pulsa! e tenta.
Soco ou corro,
Na mente é ira
diz: Veja, veja:
- Amor é uma lenda?.

Marina Ráz.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Como uma pêra

Os minutos são míseros
tudo aflige a carne,
amor, pedras e erros
nada vence o tempo.
Rugas como colméias
se formam na face.
Cada uma é uma frase
em silêncio me dizendo
“a vida é um remendo”.

Marina Ráz.

sábado, janeiro 19, 2008

Clara disse

Todos os retratos de pessoas
são um retrato de Mona Lisa.
Pequeno sorriso, pequena vida.
Minha exigência é o meu tamanho,
meu vazio é a minha medida.
Viver me tira o sono, viver
que eu havia domesticado
para torná-lo familiar.
A vida se me é. A vida se me é,
e eu não entendo o que digo.
E então adoro.

Marina Ráz.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Brancas miragens

Sequer posso sentir os calos
que se amontoam como
pequenos dedos sob meus pés
meus passos são milagrosos,
pois me levam como cavalos
além de tudo que me cerca

e por mais que me perca
e me desfaça de todos
que ainda sabem sorrir
posso sentir puro na saliva
tudo que me faz viva.

Marina Ráz.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Como as costas de uma estátua

Não sei como amar você
se com chamas, pedras
ou correntezas.
Amo sem saber, como se
nascesse desse amor
e tudo nele me desse vida.
Sinto-me despida,
frágil e cheia de incertezas.

Mas quem é você? Existe mesmo?
Quem sabe não. Nunca existiu.
Aconteceu como a chuva,
furacões, erupções vulcânicas,
como Deus nas pessoas
ou a dúvida satânica.

Dizer. Quem sabe. Acalme, mate.
Ou ao menos; torture.
O que quero. Digo:
palavras, bendita de vocês; exorcizem.
- Olá.

Marina Ráz.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Para Leminski

Ele disse que era tudo possível,
menos encher uma garrafa dele mesmo,
pois é desse impossível cachorro
que ele se empenhou "um gole, um socorro!".

Marina Ráz.

terça-feira, agosto 28, 2007

Censura Impossível

Calabouços e cadafalsos,
nem luz ou resoluto.
Só sombras e pavor,
uns, garimpam ouro
E outros, gritam. De dor!

Vou seco, vazio, ermo.
se existem espetáculos
não me foram suficientes.

No meu rosto destruído,
(Rugas, pulgas, feridas).
Ainda vivem, esses olhos,
minha cordilheira titânica.

Marina Raz.

sábado, julho 14, 2007

Pois amem!

A pedra é uma presa,
mesmo rochosa, firme
e “eterna”. Pode a correnteza
liquida, disforme e passageira.
Deformar e liquidar com essa
certeza.

Marina Ráz

domingo, abril 22, 2007

Leite e pedra

Meus pés em passos de algodão
desconheço a palma da minha mão
onde então guardo o peso
de tudo levo em minha vida,
é num lugar que desconheço
essa pergunta vem do berço,

será que escrevo minha despedida
ou a minha chegada arrependida?

Marina Ráz

quarta-feira, dezembro 27, 2006

O coração posto a prova

Com essa força duradoura,
hora ferro, hora pedra em
brasa. O meu passo atrasa
o meu peito detém o ar.

Eu começo a transmutar
e me torno uma concha,
de casca espessa e dura.

Onde encontro a cura,
onde enterro os ossos
dessa minha armadura?

Marina Ráz

quinta-feira, agosto 31, 2006

Abelhas e anzóis

Tenho apenas em mãos
esse sentimento obtuso
e como um inseto intruso
ele perfura a minha pele
se instaura como um grão,
ou um ídolo numa caverna.

Faço oferendas e canções
para essa flor interna,
amo-a tanto que meu coração
fica magro, se torna pequeno
diminuto e sorridente,

pois nasce em minha boca
no lugar de todos os dentes
flores, sim! Todas doces, ternas
e sufocantes.

Marina Ráz

domingo, agosto 27, 2006

Algo precioso

Meus músculos dançam
uma doce valsa serena
lançam meus braços ao redor
de uma pequena arena
de cor e odores sensíveis
que são invisíveis e delicados,

como relicários que guardam
segredos não contados
ou recados sem destinatários.

Deixe-me contar esse soluço
que me sobrecarrega tanto
enquanto eu expulso
todos os medos com espanto,

essas relíquias esquecidas
que se apoderam de tudo.

Marina Ráz

sexta-feira, agosto 25, 2006

Praças, fumaça e andaimes

Sinto-me como um tijolo
}soluçando{ entre dúzias
de outros suportando tolo
todo peso cambaleando,

ligados nesse concreto
fraco, desse corpo reto
lógico e cômico.

Sou lugar de descanso
uma passagem do tráfego
de botas, chinelos e sapatos
num baile sujo e trágico.

Um pedaço de pedra,
a paisagem concreta
atrapalhando o retrato.

Marina Ráz

sexta-feira, agosto 18, 2006

Acene novamente

Imensidão, todas as passagens
são paredes brancas, vejo tantas
mensagens riscada nos muros;
códigos, pedidos de socorro, mas
são todas sussurros em coro.

Onde me levam meus passos
para calabouços, cadafalsos?
Sento-me no chão e espero
meu corpo se enraizar no asfalto,
pois é tudo que quero. Que
o mundo me tome de assalto.

Marina Ráz

segunda-feira, abril 24, 2006

A fruteira

Todos os homens
são como feras
hora devoram-se
outra se lambem
saborosos brutos
nesse gládio vão-se eras
e alguns tufos,

todos merecem as rosas
troféus e vitória
régias ou ruínas
na suína batalha
de toda sina, de todo estória.

Marina Ráz

quarta-feira, abril 05, 2006

Roçar de asas

Desculpe se te devoro
lhe cuspo os ossos, olhos,
pois só sei amar assim
antropófaga e desmedida
sou algoz e prisioneira
de todas as franquezas;

amar, amar, amar, amar
eu recito e desmistifico
todas as fraquezas do mito.

Marina Ráz

sexta-feira, março 31, 2006

Leiam os jornais

Engulo ar como vidro.
Como vidros partidos
estilhaços asteróides
perco meus sentidos
(gata sem bigodes).

Marina Ráz
estilíngua

Curo as doenças do corpo
com o paladar, com a saliva.
Ocupo o andar com crenças
e busco tudo que se esquiva,
como um terremoto absorto
alimento e sacio o mundo
com dez perolas plantadas
da bocarra de um porco.

Marina Ráz